Os impactos da aviação no meio ambiente: saiba mais sobre os danos climáticos provocados pelo setor

Atualizado: 4 de mar. de 2021

Por Julia Coutinho


"Os benefícios da aviação são compartilhados de forma mais desigual em todo o mundo do que provavelmente qualquer outra grande fonte de emissão".

Essa é fala de Daniel Rutherford, diretor de aviação e transporte marítimo do Conselho Internacional de Transportes Limpos (ICCT).


O setor de aviação e a emissão de GEE


Viagens de avião emitem 2% do total de gases do efeito estufa (GEE). Entre 2013 e 2018 as emissões do setor aumentaram quase um terço. As estimativas indicam que ao redor do mundo as companhias aéreas emitiram 1 bilhão de toneladas de CO2 em 2018. Além disso, somente 1% da população mundial foi responsável por 50% dessas emissões, com apenas 11% da população utilizando o avião como meio de transporte e 4% realizando viagens internacionais.

As aeronaves evoluíram e, se comparadas com as da década de 1960, emitem 70% menos particulados (sólidos muito pequenos e aerossóis que ficam suspensos no ar). A estrutura das aeronaves também melhorou, com materiais mais leves e melhor aerodinâmica, o que possibilitou a economia de combustível. Os aviões se popularizaram a partir das décadas de 60 e 70 por serem capazes de realizar grandes deslocamentos mais rápido que transportes terrestres ou marítimos, porém como são movidos a combustíveis fósseis (querosene de aviação), liberam CO2, NOx, particulados, vapor d’água e ruídos. Nos últimos anos, com a globalização do comércio, vimos o crescimento do número de viagens longas no setor de aviação devido à intensificação do comércio com economias emergentes e à redução dos preços de voos de passageiros.


O custo dos danos climáticos causados pela aviação em 2018 foi estimado em até US$100 bilhões, segundo estudo deste ano publicado na Global Environmental Change. Neste ano, devido à pandemia do coronavírus, o número de voos diminuiu, mas o setor de aviação espera retornar aos níveis de anos anteriores de atividade até 2024. A redução de GEE no setor é um

grande desafio já que a atividade tende a continuar aumentando e num futuro próximo as aeronaves continuarão dependentes de combustíveis fósseis. Por ser um problema global, as emissões da aviação são majoritariamente reguladas por organizações internacionais, como a OACI (Organização da Aviação Civil Internacional).


O plano CORSIA: uma tentativa de mudar o rumo do setor



A OACI, por meio do plano de implementação CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation), planeja que a aviação internacional tenha um crescimento neutro em carbono a partir deste ano e que a eficiência dos combustíveis aumente anualmente 2% até 2050. Para esse cálculo, as emissões de 2019 foram utilizadas como base e, nos próximos anos, as emissões que ultrapassarem os valores do ano passado devem ser compensadas. A compensação ocorre por meio da compra de créditos de carbono de outro setor que consiga reduzir as emissões em suas atividades, ou pelo uso de combustíveis alternativos que foram definidos no CORSIA como combustíveis elegíveis por terem menores emissões de carbono e atenderem critérios de sustentabilidade.


Para que a meta de crescimento neutro em carbono seja, de fato, atingida, todos os países devem participar para gerar um real impacto na aviação internacional, os combustíveis alternativos devem ter uma emissão significativamente menor e os créditos comprados pelas operadoras devem ter origem em processos que realmente diminuíram permanentemente suas emissões. Infelizmente, essas condições serão dificilmente alcançadas. Menos de 50% da aviação internacional está ao alcance da CORSIA, por ser difícil que ambos países, de partida e de destino da viagem, participem simultaneamente do plano.


A fase piloto, entre 2021 e 2023, tem implementações inconsistentes, com diferentes critérios ao redor do mundo. Os combustíveis elegíveis devem gerar pelo menos 10% a menos de emissões que o querosene de aviação internacional, mas essa taxa ainda permite a utilização de vários tipos de combustíveis fósseis. O preço das unidades de carbono emitidas ainda está baixo no mercado (aproximadamente 3,00 euros entre 2016 e 2018), o que não é suficiente para forçar as empresas aéreas a buscarem a redução das emissões por meio de mudanças em questões técnicas (tipo de combustível utilizado e materiais da estrutura do avião) ou operacionais (rotas mais curtas, decolagens e pousos mais econômicos).


O plano inclui somente emissões de CO2 e não aborda a emissão de outros GEE, como o NOx, que tem um impacto de duas a quatro vezes maior que o CO2. As metas do Acordo de Paris estão ainda mais distantes: as emissões de voos internacionais devem ser de até 300Mt em 2030 (foram emitidos 600Mt em 2019) e chegar a zero em 2060, mas o plano de crescimento neutro em carbono é insuficiente para que esses objetivos sejam alcançados.


SAF: o combustível de aviação sustentável


O SAF, diferentemente do querosene de aviação tradicional, não é um derivado do petróleo. O biocombustível pode ser obtido por diferentes processos em que as matérias primas podem ser óleos vegetais, gorduras animais, açúcares, biomassa, resíduos urbanos ou de madeira. Não é o mesmo biocombustível utilizado nos transportes terrestres e deve seguir diversas normas, como as definidas pela União Europeia e pelos EUA, tendo as mesmas propriedades e funcionando nos mesmos equipamentos que o combustível convencional.


Atualmente, o uso do SAF é certificado em mistura de até 50% com o querosene de aviação. A demanda para uma frota utilizando 100% SAF seria de 500 milhões de toneladas por ano e geraria uma diminuição de 63% nas emissões, mas para a produção dessa enorme quantidade de combustível seriam necessários grandes investimentos de capital na infraestrutura da produção e apoio de políticas públicas.


Além do combustível promissor, existem também pesquisas na área de eletrificação dos sistemas das aeronaves, como propulsão elétrica e desenvolvimento de modelos híbridos. A maioria tem previsão de lançamento até 2030.


"Medidas como a melhoria da eficiência dos combustíveis através do recurso a materiais mais leves ou de outras opções técnicas não serão suficientes para cumprir as metas europeias em matéria de emissões e de sustentabilidade. O público também pode dar o seu contributo. Importa fomentar o atual debate sobre comportamentos sustentáveis em termos de deslocações e de consumo. Esse debate pode ajudar a mudar estilos de vida e hábitos de transporte”, afirmou Anke Lükewille, especialista da AEA (Agência Europeia do Ambiente) em entrevista à AEA sobre emissões da aviação e do transporte marítimo.

Referências



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