Modelo de negócio circular


Por Raphaela Mattos


Com a utilização do pensamento econômico linear, ou seja, quando um produto fabricado é diretamente descartado após seu uso, percebe-se o grande aumento do uso de matérias primas e do descarte de inúmeros resíduos no planeta. Como grande parte dos processos (matéria prima, receptor e “digestor” de resíduos) dessa economia linear utilizam produtos não renováveis, empresas e governos começaram a perceber como são dependentes dos mesmos e como tais recursos possuem preços que variam muito no mercado. Com esse mal-estar, a Economia Circular aparece como uma saída para menor dependência de materiais não renováveis, assim como menor descarte de resíduos e maior reutilização e reciclagem de produtos, tendo em vista a queda da estrutura linear em, principalmente, organizações privadas.

Observando esse tema, Guilherme França, Hans Lucas e Pedro Arthur, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) criaram uma proposta de modelo de negócio para uma organização denominada por eles de “Nossa Empresa”, que tem como objetivo o uso do vidro de forma retornável de acordo com as circunstâncias logísticas e sociais na região do Rio de Janeiro. Dessa forma, foram apresentados não só conceitos, regulamentos e normas que devem ser estabelecidos para um comércio com essa finalidade, como também as fases para ocorrer essa logística circular.

Quando é utilizado o termo retornável, indica-se a reutilização do material em questão. Sendo assim, avaliou-se que o ciclo de vida de embalagens de envases de plásticos perdem para as embalagens retornáveis de vidro em um raio de distribuição (de preferência de até 200 km), visto que, a partir de 6 retornos do vidro, o sistema começa a fazer menos uso de energia, diferentemente do descartável. Uma outra pesquisa apresentou que a escolha do vidro não só é mais vantajoso financeiramente, como também gera redução de custos, além de haver maior facilidade na reutilização do produto em questão. Tal fato também acaba por gerar menor descarte no meio ambiente desse material, o que diminui problemas sociais e ambientais. Além disso, foi analisado que as perdas de vasilhames usados giram em torno de três acontecimentos: recipiente quebrado na produção, estocagem ou distribuição, bicados na produção ou distribuição e recipientes estourados na linha de envase. Com isso, deve-se estabelecer uma boa parceria com os fabricantes de vidro para que ele possa vir a utilizar os materiais danificados e, assim, possuir uma responsabilidade ambiental maior em seu modelo de negócio.

Analisando o comércio atual, o mercado de produtos artesanais de alimentos e bebidas crescente, o vidro passa a ser um bom material para embalagens dos objetos produzidos. Isso é estudado, visto que essa indústria artesã possui maior acessibilidade e é próximo ao cliente. Por isso, todo o modelo de negócio circular estabelecido serve como base para oferecer uma proposta sustentável e circular para produtores artesanais, gerando uma minimização de custos com embalagens através da entrega de recipientes de vidros retornáveis de acordo com a demanda estabelecida.

No estudo apresentado, são descritos não só a logística que o projeto adquire, como também o design dos produtos, para que estejam de acordo com a demanda e que sejam mais adequados para a reutilização, da mesma forma que apresentam a descrição das fases envolvendo o Centro de Distribuição e Lavagem e as regulamentações que todos esses processos precisam seguir. Inclusive sinalizou a viabilidade econômica e orçamentária do modelo ao longo de 72 meses e foi verificado que o negócio passaria a retornar o investimento inicial em 55 meses. Logo, um fluxograma elaborado pelos autores do texto exemplifica como funcionaria a proposta de operação e como iria diferenciar do modelo atual:


Fluxograma de proposta de operação. (F. Guilherme; B. Hans; C. Pedro, 2020)


O modelo trouxe uma visão muito detalhada e técnica não só da análise e a viabilidade de um negócio circular para embalagens de vidro para produtores artesanais no Rio de Janeiro, como também a possibilidade de observação de possíveis contratempos, pois as mesmas estão relacionadas às mudanças que a economia, as instituições, mercadológicas e comportamentais ainda precisam aderir para abraçar a causa. Principalmente a comportamental, ou seja, o hábito linear que já está gravado na população da região. Contudo, se mais estudos fossem postos em prática e mais modelos fossem estabelecidos e compartilhados, esse sistema circular poderia vir a ser um novo hábito para as empresas e a sociedade.


Referência

F. Guilherme; B. Hans; C. Pedro. MODELO DE NEGÓCIO CIRCULAR PARA FORNECIMENTO DE RECIPIENTES DE VIDRO PARA PRODUTORES ARTESANAIS NO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro: UFRJ, 2020.



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