Logística reversa em tempos de pandemia

Atualizado: 4 de mar. de 2021

Por Christian Felix, Larissa Freire e Rafael Eudes.


Segundo o Council of Supply Chain Management Professionals: “Logística Reversa é o processo de planejamento, implementação e controle do fluxo eficiente e econômico de matérias-primas, estoque em processo, produtos acabados e informações relacionadas, do ponto de consumo ao ponto de origem, com objetivo de recuperar valor ou descarte adequado.” Em outras palavras, a Logística Reversa se refere a meios de viabilizar a coleta e a reintrodução de resíduos sólidos, que já foram consumidos e descartados pelo consumidor final, mas que ainda possuem valor agregado, de forma a serem reaproveitados na cadeia produtiva de empresas ou indústrias, e assim assegurar sua destinação final ambientalmente adequada. Em alguns casos, representa até 5% do faturamento das empresas, sendo uma vertente moderna, de forte crescimento e muito importante nos novos modelos de negócios.


A Lei 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cita a Logística Reversa como um dos principais instrumentos na implementação da responsabilidade compartilhada dos resíduos, sendo esta as atribuições tanto de empresas fabricantes, importadoras, distribuidoras e comerciantes, quanto dos consumidores e dos serviços públicos de limpeza urbana, de realizarem um manejo e destinação adequados dos resíduos. Levando em conta o grau de periculosidade e o volume gerado, a Lei obriga que as empresas fabricantes retornem aos seus processos ou destinem a outros os seguintes produtos: pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes, produtos eletroeletrônicos, óleos lubrificantes (suas embalagens e resíduos), agrotóxicos (suas embalagens e resíduos), pneus e embalagens em geral (plásticos, metal ou vidro).


Por demanda criada pela PNRS, foi estabelecido em 2015 através do Acordo Setorial para Logística Reversa de Embalagens em Geral a meta de garantir a destinação adequada de pelo menos 22% das embalagens colocadas no mercado. Em 2017, esta meta se tornou obrigatória para todas as empresas do ramo, mesmo as não signatárias do acordo.

Nessa perspectiva, nota-se que o novo conceito de Logística reversa é o de Economia Circular, que compreende os conceitos de Avaliação do Ciclo de Vida de um produto junto à Logística Reversa. Tal conceito propõe reverter a linearidade da vigente economia linear – que refere-se a produção proveniente de matéria-prima virgem, seguida de seu consumo e descarte, promovendo a perda de valor econômico do resíduo que torna-se rejeito não aproveitável – ao não colocar um ponto final depois do resíduo, mas sim buscar promover um looping, sendo o resíduo reintroduzido na linha de produção e compondo um novo produto, até que o material não tenha mais valor agregado. Na prática, os loopings não são infinitos, devido a degradabilidade dos materiais em cada ciclo de reaproveitamento.


A logística reversa é uma forma de maximizar os recursos do nosso planeta e estender sua longevidade. Essa nova forma de pensar tem como principais vantagens a redução da poluição e, com isso, a degradação ambiental e impactos à saúde humana; o estímulo ao reaproveitamento e à reciclagem de materiais evitando, assim, o seu acúmulo em lixões e aterros sanitários; e promover uma redução na necessidade de exploração de matéria-prima virgem que seria incorporada ao processo produtivo. Isso reduz a pegada de carbono e potenciais passivos ambientais das empresas ou indústrias que realizarem a logística reversa.


A falta de investimentos, falta de uma estrutura para coleta seletiva em larga escala, educação ambiental precária aliada à complexidade da segregação de materiais que compõem os produtos, são alguns dos entraves que dificultam uma plena realização da reciclagem, tornando-a não rentável por parte do Poder Público e da Indústria devido aos altos custos em lidar com tal passivo ambiental.


Por conta disso, no Brasil, a triagem de recicláveis acaba sendo muito mais uma forma de obtenção de renda e sustentação da população mais pobre do que de fato uma solução ambiental. De acordo com dados do Movimento de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), é estimado que existam mais de 800.000 catadores de materiais em atividade no Brasil. Devido a sua importância na cadeia de gestão de resíduos, os catadores devem ser, por lei, envolvidos em soluções para os recicláveis.


Em meio à pandemia de COVID-19, muitos estados estagnaram as suas atuações na coleta seletiva, o que resulta em muitos materiais indo diretamente para aterros. Além do aumento de resíduos sendo dispostos no meio ambiente e degradando o mesmo, isso impacta diretamente no rendimento dos catadores, que obtêm a sua receita através do resíduo. Por isso, é importante que investimentos externos existam para o contínuo suporte da classe de catadores. Ademais, somado ao fato de que o Brasil possui uma precária Educação Ambiental e o lixo domiciliar não é comumente separado, torna-se muito difícil retomar as taxas de reciclagens do momento anterior à pandemia.


Nessa perspectiva, a logística reversa faz-se cada vez mais necessária não só agora, mas em um contexto pós COVID-19, aliada com tecnologia e automatização visando evitar, assim, uma crise ambiental e sanitária após a pandemia.


Em relação aos negócios que têm interesse em implementar e manter a logística reversa durante ou após a pandemia do COVID-19, vale ressaltar o aumento expressivo do Comércio Eletrônico no cenário pandêmico atual. Nesse contexto, vale lembrar que 30% de todos os produtos vendidos neste setor sofrem devolução em função de danos reais ou aparentes, ou envio incorreto. Dessa forma, além dos impactos gerados pelo uso de embalagens de transporte, há também o impacto de descarte de produtos que não satisfazem o cliente, tornando a necessidade de uma mentalidade de circularidade ainda maior.


Dessa forma, a utilização de matéria-prima reciclada no lugar da matéria-prima virgem é uma possível fonte de economia para diversas empresas. Além disso, a utilização de matéria-prima virgem intensifica o volume de emissões de carbono, o que pode não ser bem visto por consumidores atentos a causas ambientais.


Para implementar a Logística Reversa em suas cadeias de produção, as empresas devem se atentar à criação de um sistema operacional de recebimento, armazenagem e separação para produtos no fim de uso, danificados ou de devolução, proporcionando a criação de novos produtos, ou subprodutos. Para isso, são necessárias a qualificação da mão de obra, além de investimentos em tecnologia e automatização de processos, com o intuito de manter a viabilidade financeira do empreendimento. Vale ressaltar, também, a possibilidade de terceirização desse procedimento.


Como já mencionado anteriormente, a Logística Reversa é um meio fomentador da renda de uma boa parte da população, seja no mercado formal ou informal. Pessoas diretamente envolvidas com a gestão de resíduos e reciclagem foram impactadas com a estagnação da coleta seletiva e de empresas de reciclagem em grande parte do território nacional.


Além disso, em função do precário conhecimento em Educação Ambiental da sociedade brasileira, poucas são as residências que realizam a segregação correta dos resíduos gerados. Situação essa ainda mais alarmante em um cenário de produção de lixo até 25% maior que a geração padrão antes do isolamento social. Pode-se dizer, então, que as taxas de reciclagem, já baixas antes da pandemia, vão ser praticamente inalcançáveis.


As atividades relacionadas aos resíduos sólidos precisam ser financiadas e boa parte desse financiamento é proveniente do poder público. A dificuldade receitual vigente, em conjunto com a não tributação de resíduos, resulta em uma dificuldade da manutenção dos contratos de operação, além de haver maior taxação sobre a matéria-prima reciclada do que a virgem, encarecendo o produto final e não tornando rentável a compra de produtos reciclados por parte da população (ex: uma resma de papel reciclado é mais cara do que a mesma resma de papel virgem, o que desestimula as pessoas a consumirem mais conscientemente). Ademais, como exemplo, o plástico é descartado muitas vezes, pois o valor pago por este produto é baixo, o que não acontece, por exemplo, com alumínio, aço e papelão, em contrapartida.


Diante disso, o Poder Público deve incentivar que tanto a população quanto a indústria consumam materiais reciclados, e para isso deve-se financiar atividades de reciclagem buscando, assim, um aumento da vantagem econômica de materiais reciclados em detrimento aos não recicláveis; investir em educação ambiental à população com o objetivo de promover a separação do lixo domiciliar; bem como cobrar um valor mais justo sobre os serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos para que esses obtenham uma melhor performance.


Segundo dados do SNIS de 2018, a quantidade de lixo gerada por habitante no Brasil é de 1 kg por dia. Em tempos de pandemia, apesar de ter ocorrido um desaceleramento da economia, é possível notar um aumento na produção de lixo devido a fatores como delivery, compras online e a práticas de higienização cada vez mais constantes. Esses acabam contribuindo para uma maior geração de resíduos descartáveis presentes em embalagens, por serem vistos como a melhor alternativa em termos de segurança e higiene, além de papéis, máscaras e luvas descartáveis.


No entanto, a maior parte dos municípios no Brasil não contam com coleta seletiva e, de acordo com o SNIS, para cada 10kg de lixo coletado, 411g são coletados de forma seletiva e apenas 3% é reciclado. Ainda assim, 30% do nosso lixo é composto por material reciclável, indicando a precariedade desse tipo de serviço no país. Com o isolamento social e o home office, houve um aumento de 15 a 25% na geração de lixo domiciliar, além de terem sido produzidos de 10 a 20 vezes mais resíduos hospitalares nesse mesmo cenário, tornando a problemática dos resíduos ainda mais agravante.


Diante disso, é imprescindível a desmistificação do quadro de reciclagem brasileiro atual e uma participação e engajamento maior por parte das pessoas na promoção de iniciativas, públicas ou privadas, para o uso mais consciente dos recursos, para a redução da geração e alocação mais adequada dos resíduos, e para a efetivação da Logística Reversa como um todo.


Referências:

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