Do plantio até o descarte, o cigarro representa um impacto socioambiental muito severo

Atualizado: 4 de mar. de 2021

Por Rafael Eudes e Felipe Henriques


Nas plantações de tabaco há um risco eminente de problemas respiratórios. O fenômeno conhecido como “doença da folha verde” surge da inspiração de partículas tóxicas produzidas na queima de madeira para secagem das folhas. Ainda no plantio, o uso de agrotóxicos ocorre em grande volume e variedade em diferentes fases, resultando na poluição de lençóis freáticos, córregos, solos e rios.


Em estudo¹, 16 famílias de agricultores do sul do Brasil, envoltos pelas plantações de tabaco, foram ouvidos, denunciando diversas problemáticas dessa monocultura, uma das denúncias foi a baixa qualidade do ar durante os meses de cura do tabaco no qual a fumaça impregna o ar e nas casas próximas e as pessoas queixam-se de ardência no nariz


O tabagismo é um dos principais fatores de risco evitáveis à saúde, podendo contribuir para o desenvolvimento de várias doenças crônicas como doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, pneumonias e asma, problemas oculares como catarata e cegueira, entre outras. (IBGE PNS 2013)


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há no mundo cerca de 1,6 bilhão de fumantes. De acordo com a Aliança de Controle ao Tabagismo (ACT), cada pessoa descarta, em média, 7,7 baganas de cigarros por dia. Sendo assim, diariamente, são descartadas cerca de 12,3 bilhões de bitucas (ECYCLE, 2013).


A bituca de cigarro é constituída pelos resquícios de tabaco do cigarro, um filtro, e 165 produtos químicos tóxicos. O filtro do cigarro é responsável por acumular particulados presentes na fumaça, permitindo que esta seja diluída. Tais filtros são feitos de acetato de celulose, que é um material termoplástico e possui degradação lenta no meio ambiente, podendo levar até 5 anos para se degradar. O brasileiro fuma, em média, 17 cigarros por dia (The Tobacco Atlas). No perído de um ano, isto equivale a 6.205 cigarros, o que representa o volume de 3,2 litros de guimbas de cigarro.


Além disso, bitucas são consideradas resíduos de riscos ambientais, uma vez que contém contaminantes de cigarros e substâncias químicas produzidas durante a combustão. Esses contaminantes podem ser lixiviados pela chuva em águas superficiais e contaminar o meio ambiente.


Dados da ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, SP) relatam que duas unidades de bitucas lançadas na água corresponde à poluição de 1 litro de esgoto doméstico.


De acordo com cientistas da Universidade Estadual de San Diego, o LC 50 para lixiviado de bitucas de cigarro é de aproximadamente uma bituca por litro. Isto significa que uma bituca de cigarro em um litro de água é responsável por matar metade da população de peixes presentes.

Um estudo da Knox College revela que as bitucas são os primeiros itens descartados em uma cadeia de geração de lixo. Com a indevida disposição das bitucas de cigarro em um determinado local, este ambiente se torna mais propenso ao acúmulo de outros resíduos.


Acredita-se que a má disposição das bitucas na natureza se deve à um efeito colateral da proibição do fumo em ambientes fechados como restaurantes e bares. A falta de disposição de coletores próximos a tais ambientes acentua a incorreta disposição de bitucas de cigarro.

Foto tirada pelo Membro Rafael Eudes em uma ação com o SOS Lagoas. Foi retirado uma garrafa de 2 L cheia de bitucas de cigarro e 102 sacos de lixo de 200 L. Foram em torno de 35 participantes em apenas 3 horas de mutirão.


Por tudo isso, surge a necessidade da disposição correta das bitucas de cigarro, as quais podem ser dispostas primeiramente em recipientes próprios pelos usuários e em seguida depositados em coletores responsáveis. O material residual poderá se transformado em adubo ou material para fabricação de papel!


A título de ilustração, o Poiato Recicla é uma iniciativa que oferece um serviço amplo para o descarte correto das guimbas (bitucas), ressignificando as bitucas em papel artesanal, a qual pode ser adotada em empresas e instituições.


A USP, de forma exemplar, instalou cerca de 20 caixas coletoras de bitucas de cigarro nos prédios da Escola Politécnica em localidades com grandes fluxos para que as bitucas de cigarro sejam descartadas adequadamente.

Foto de uma bituqueira retirada do site da Escola Politécnica da USP.


Infelizmente, em algumas regiões do país, como o Rio de Janeiro, carecem de informações sobre onde é possível destinar as bitucas de cigarro para reciclagem. Sobretudo, é necessária uma mudança de atitude da população com relação aos riscos do descarte inadequado e aos benefícios do reaproveitamento, a fim de reduzir os impactos dos resíduos e da fabricação do cigarro, compartilhe esse conteúdo e ajude a promover essa reflexão.

¹Riquinho, Deise Lisboa, & Hennington, Élida Azevedo. (2014). Aderir ou resistir ao cultivo do tabaco? Histórias de trabalhadores rurais de localidade produtora no Sul do Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 19(10), 3981-3990.




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