Agricultura no planejamento arquitetônico das cidades

Agricultura urbana, food miles, qualidade e segurança alimentar. Como esses conceitos podem ser empregados nas cidades?


Por Gabriel Bezerra Costa de Lima

De onde vem e como é produzido a comida do supermercado se tornou uma pergunta frequente para as pessoas que investigam as formas de consumo saudável e são preocupadas com o meio ambiente. A maior parcela dos alimentos consumidos hoje passa por um longo processo até chegar efetivamente ao prato. Uma rede invisível de fluxos é formada com os alimentos, ligando cidades, estados e até continentes.


Pesquisadores analisam o impacto socioambiental da distância do alimento até as pessoas que, de fato, o consomem. Chamado de food miles, o tema é descrito dessa forma devido ao traslado sofrido pelos alimentos da produção até a mesa.


Nesse sentido, discursos são criados em torno do modelo tradicional, que incentiva longos trajetos não eficientes de transporte, comprometendo a integridade do alimento e gerando uma enorme quantidade de desperdício. Dessa forma, encurtar o percurso entre a produção e o consumo pode ser uma ótima opção para criar uma cadeia logística mais eficiente e simplificada.


De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, 2015) a maior parte da população brasileira, cerca de 84,72%, vive em áreas urbanas. Esse cenário é visto em todo o globo e ressalta a importância de garantir segurança e qualidade alimentar para todos os habitantes das cidades. Na busca por soluções que comunguem com os três conceitos (qualidade, segurança e food miles), cresce o índice de iniciativas inovadoras que tentam promover a integração entre os habitantes das cidades e a agricultura. Esses novos movimentos promovem fluxos de produção mais perto dos consumidores, além de promover a reconexão com o cuidado com o próprio alimento. Portanto, estão intrinsecamente ligadas ao consumo local (locavorismo), que é a compra de comida apenas em produtores locais. Mas como fazer isso nos grandes centros urbanos, com alta densidade de asfalto e quase nenhuma área reservada para o plantio?

A arquitetura das cidades não é estática. Muitos aspectos influenciam a forma de se conceber projetos na área da construção civil. Nesse sentido, as mudanças climáticas e o apelo mundial por um planeta mais sustentável estão revolucionando as escolas de arquitetura e urbanismo. Esse é o cenário ideal para que ideias transformadoras surjam, possibilitando uma arquitetura urbana que integre a agricultura, podendo ser um complemento para os produtos agrícolas do campo. Para essa empreitada, será necessário a criação de projetos de fazendas verticais urbanas ou hortas que consigam produzir grandes quantidades de alimento por ano, distinguindo-se, dessa forma, de hortas individuais de pequeno porte.


Dá uma olhada em alguns projetos incríveis que existem sobre fazenda urbana e o impacto na segurança e qualidade alimentar das cidades


Por todo mundo cresce o número de projetos seguindo a ideia de fazendas urbanas. Paris, a capital da França, inaugurou a maior fazenda urbana com aproximadamente 14.000m² sobre os telhados do Parque de Exposições de Versalhes. O projeto, intitulado Nature Urbaine, é o mais audacioso no momento, com a meta de produzir frutas e vegetais livres de agrotóxicos ou fertilizantes químicos. O plantio ainda não tem a sua capacidade máxima, mas já é considerado um grande passo para agricultura urbana.


Maior horta urbana do mundo. Cobertura no centro de exposições de Versailles, Paris, França — Foto: Stephane de Sakutin/AFP


Da mesma maneira, o Distrito Agrícola Urbano Sunqiao, em Xangai, é outro movimento para garantir segurança alimentar para as pessoas da cidade. Com uma enorme população, que supera os 20 milhões de habitantes, e a diminuição da disponibilidade de terras para plantio, devido a alta densidade urbana e os terrenos extremamente caros, foi planejado um conjunto de prédios formando um sistema de fazenda hidropônica vertical que juntos somam 100 hectares.


Distrito Agrícola Urbano Sunqiao, em Xangai, China. (Fonte: Sasaki Associates)


Distrito Agrícola Urbano Sunqiao, área externa, em Xangai, China (Fonte: Sasaki Associates)


Projetos de agricultura urbana que valorizam a qualidade nutricional, método de produção sustentável e ainda garantem a segurança alimentar para os habitantes são verdadeiros espaços para o diálogo entre agricultura e cidades, lugares que sempre foram pautados na dicotomia de funções. Hoje, eles se apresentam unidos refletindo no pensamento urbanístico e arquitetônico para entender novas configurações de centros urbanos. Fazendas verticais ou “nos telhados” ou ainda soluções inovadoras não citadas no texto mostram que o verde sempre assegurará a nossa sobrevivência.


Referências:


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